O ar condensado escorria preguiçosamente pelo copo plástico enquanto o sol se punha mais uma vez. Ele deu outro longo gole e respirou fundo. Viu longas tranças ruivas passarem, deixando um ínfimo aroma de cereja que só alguém em sua condição poderia resgatar.
Durante sua passagem, os olhos rubros da menina percorreram a perfeita camisa pólo azul que contrastava com o resto do homem que a vestia, manchada com o suor que escorria pelo corpo inteiro, completando sua expressão vazia e ao mesmo tempo de completa exaustão que dava forma à pele envelhecida, e agora em chamas, de seu rosto.
Ele sabia que não era exatamente a roupa mais adequada, mas era tudo que restara de sua vida despreocupada. Estupidamente havia pensado que, voltando à velha rotina, resgataria seus velhos pensamentos. Mas agora a idéia de que o suor e o cansaço o ajudariam a sentir alguma coisa parecia extremamente absurda.
Não notou quando o vento passou por seus cabelos molhados e sujos sem mover um fio. Tampouco sentiu as bolhas que começavam a se formar em seus pés, ou a mão suja e inocente que tocava suas costas implorando por dinheiro. Não ouvia mais os carros passando apressados por seus ouvidos, ocupados atrás das banalidades humanas.
As lindas pernas partiram. E outras. Braços, barrigas. Todos vinham e não se demoravam a ir. Como não encontrasse solução para o que o havia levado ao estado medíocre em que se encontrava, roncou suavemente o canudo pelas últimas gotas do milk-shake, deixou o copo no banco e saiu, trôpego.
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